Em 2016, uma equipa internacional dedicada de marinheiros e cientistas embarcou numa missão para pesquisar o Mar Negro (Projeto de Arqueologia Marítima do Mar Negro) em busca de evidências da resposta humana pré-histórica ao aumento do nível do mar. O que eles encontraram superou todas as expectativas. Usando sonar e veículos operados remotamente, os pesquisadores encontraram 41 naufrágios notavelmente bem preservados, abrangendo mais de um milênio de tempo.

A química única da água do Mar Negro desempenhou um papel crucial na preservação destas embarcações antigas. Ao contrário de muitas massas de água, o Mar Negro tem uma concentração extremamente elevada de enxofre e hidrogénio (anóxica) e baixo teor de oxigénio em certas profundidades, criando uma “zona morta” quase isenta de oxigénio. Esta falta de oxigénio retarda drasticamente a decomposição da madeira e das cordas, permitindo que estes navios permaneçam notavelmente intactos, mesmo depois de centenas de anos sob as ondas.
Após um exame mais detalhado, ficou claro que alguns desses naufrágios não apenas foram bem preservados, mas também mantiveram detalhes intrincados de sua construção original. Marcas de cinzel e ferramentas em pranchas individuais, bem como materiais de cordame intactos, rolos de corda, caixas, lemes e elementos decorativos de madeira esculpida, fornecem uma janela para o artesanato dos marinheiros de séculos passados.
Um dos aspectos mais notáveis desta descoberta é a ampla gama de períodos de tempo e civilizações representadas pelos naufrágios. Datados do século IX ao século XIX, esses navios incluem navios bizantinos, otomanos e italianos medievais. Além disso, a carga transportada por estes transportes mercantes oferecia informações valiosas sobre as extensas redes comerciais da época, com mercadorias que iam desde metais preciosos a especiarias.

O que torna estas descobertas ainda mais intrigantes é a explicação por trás do desaparecimento dos naufrágios. Acredita-se que as violentas tempestades foram as culpadas pelo afundamento dessas embarcações, e não as batalhas ou encontros com bucaneiros. O clima violento e a natureza imprevisível das tempestades do Mar Negro provaram ser um adversário formidável para estes antigos marinheiros.
Esta pesquisa inovadora foi conduzida por uma equipe de cientistas britânicos, americanos e búlgaros, que utilizaram tecnologias de ponta em mapeamento subaquático. Dois veículos operados remotamente foram empregados para capturar fotos de alta resolução, vídeos e medições a laser dos naufrágios. Esses meticulosos registros visuais e espaciais foram então transformados em modelos tridimensionais, proporcionando aos pesquisadores e entusiastas uma experiência imersiva dessas antigas relíquias.
Além dos conhecimentos inestimáveis obtidos com os próprios naufrágios, a equipe também coletou amostras do fundo do mar do Mar Negro. Estas amostras seriam submetidas a análises rigorosas, permitindo aos investigadores descobrir como os povos pré-históricos navegaram e se adaptaram às condições ambientais em constante mudança.
Curiosamente, as descobertas da “zona morta” no Mar Negro não pararam por aí. Em 2018, os investigadores descobriram o naufrágio intacto mais antigo do mundo nesta região isolada do Mar Negro. O navio, que se acredita ter cerca de 2,400 anos, é considerado um navio comercial grego semelhante àquele em que navegou o lendário Odisseu.

Estima-se que o navio seja do período clássico, datando de cerca de 400 aC. É uma embarcação de madeira, medindo cerca de 75 pés de comprimento, e está notavelmente bem preservada, com mastro, leme e bancos de remo ainda intactos. Os pesquisadores também encontraram vários potes, potes e ânforas antigos, indicando uma carga de diversos produtos.
Os pesquisadores acreditam que o navio tinha uma tripulação mista greco-fenícia e provavelmente estava envolvido em rotas comerciais no mundo antigo. Pode ter navegado do Mar Negro para destinos no Mediterrâneo, transportando mercadorias como vinho e azeite.
As descobertas na “zona morta” do Mar Negro não só capturaram a imaginação dos cientistas, mas também reacenderam o interesse pela arqueologia marítima e pelos mistérios do passado. Estes naufrágios notavelmente bem preservados oferecem uma rara oportunidade de juntar as peças da história marítima da região, sendo uma porta de entrada para as vidas e meios de subsistência daqueles que uma vez se aventuraram nestas águas traiçoeiras.
À medida que nos aprofundamos nos segredos das profundezas do Mar Negro, não só descobrimos fragmentos de navios perdidos no tempo, mas também nos conectamos com as lutas, triunfos e intercâmbios culturais de civilizações há muito desaparecidas. A cada naufrágio, um capítulo da história é revelado, lembrando-nos da interligação da experiência humana e dos preciosos vestígios que jazem sob as ondas.




